quarta-feira, 28 de março de 2018

FOSTER, VOCÊ ESTÁ MORTO - Philip K. Dick

FOSTER, VOCÊ ESTÁ MORTO
(Foster, you’re dead, publicado originalmente na revista Star Science Fiction Stories No.3. em 1955)




A escola era uma agonia, como sempre. Só que naquele dia era ainda pior.
Mike Foster terminou de tecer suas duas cestas e sentou-se rígido, enquanto ao seu redor as outras crianças trabalhavam.
Fora do prédio de concreto e aço, o sol da tarde da tarde brilhava. As colinas verdes e marrons no ar fresco do outono. No céu alguns NATS circularam preguiçosamente acima da cidade.

A forma vasta e sinistra da Sra. Cummings, a professora, aproximou-se silenciosamente da sua escrivaninha.

— Foster, você já terminou?

— Sim, senhora — ele respondeu empurrando as cestas para cima do tampo. — Posso sair agora?
A Sra. Cummings examinou suas cestas de forma crítica.

— E a armadilha?

Ele mostrou sua intrincada armadilha para pequenos animais.

— Tudo terminado Sra. Cummings. E minha faca, também está — disse mostrando a ela a lâmina afiada de metal brilhante que ele tinha feito a partir de um tambor de gasolina descartado.
Ela pegou a faca e correu seu dedo experiente ao longo da lâmina.

— Não é forte o suficiente — afirmou — você afiou demais. Desça ao laboratório de armas principal e examine as facas que eles têm por lá. Em seguida, aperfeiçoe a sua fazendo uma lâmina mais grossa.

— Sra. Cummings, eu poderia consertar isso amanhã? Posso sair agora, por favor?

Todos na sala de aula estavam assistindo com interesse. Mike Foster corou; ele odiava ser observado e chamar a atenção, mas ele precisava sair. Não podia ficar na escola nem um minuto mais.
Inexorável, a Sra. Cummings gritou:

— Amanhã é dia de cavarmos. Você não terá tempo para trabalhar na sua faca.

— Eu terei, depois de cavar.

— Não, você não é muito bom em cavar.

A velha estava medindo os braços e as pernas do menino.

— Acho melhor você terminar sua faca hoje. E amanhã passar o dia no campo.

— Mas qual a utilidade de cavar?  — Mike Foster exigiu saber em desespero.

— Todo mundo tem que saber cavar — A Sra. Cummings respondeu pacientemente.

As crianças riam de todos os lados; ela os fez calar-se com um olhar hostil.

— Vocês todos sabem a importância de cavar. Quando a guerra começar, toda a superfície estará cheia de escombros. Se esperamos sobreviver, teremos que cavar, não é? Algum de vocês já assistiu a um esquilo cavando as raízes das plantas? Ele sabe que encontrará algo valioso embaixo da superfície. Todos nós seremos pequenos esquilos marrons. Teremos que aprender a cavar nos escombros e encontrar coisas boas, porque é lá que elas estarão.

Mike Foster sentou-se segurando sua faca, enquanto Mrs. Cummings se afastava. Algumas crianças sorriram com desprezo para ele, mas nada penetrou sua neblina de frustração. Cavar não adiantava nada. Quando as bombas caissem, ele seria instantaneamente morto. 
Todas as vacinas em seus braços, coxas e nádegas, não serviriam de nada. Gastara seu dinheiro à toa, Mike Foster não estaria vivo para pegar nenhuma das pragas bacterianas. A menos que...
Ele se levantou e seguiu até a mesa da professora.

— Por favor, tenho que sair. Preciso fazer algo.

Os lábios cansados ​​da Sra. Cumming se torceram com raiva, mas o olhar do menino a trouxe de volta.

— O que foi? Está se sentindo mal?

O menino ficou parado, incapaz de responder. A classe murmurava e ria até que a Sra. Cummings bateu com raiva na mesa com um apagador.

— Fiquem quietos! Michael, se você não está sentindo-se bem, desça as escadas até a clínica psiquiátrica. Não adianta tentar trabalhar quando suas reações estão conflitantes. Miss Groves ficará feliz em tratar você.

— Não é isso — disse Foster.

— Então, o que é?

A turma se agitou. Vozes responderam por Foster.

— O pai dele é um anti-P — explicaram. — Eles não têm abrigo e ele não está registrado na Defesa Civil. Seu pai nem contribui para o NATS.

A Sra. Cummings olhou com espanto para o menino mudo.

— Você não tem abrigo contra bombas?

Ele balançou sua cabeça. Um sentimento estranho a acertou.

— Mas... — ela começou a dizer que ele iria morrer, porém mudou para... — Mas para onde você vai?.

— Lugar nenhum — as vozes responderam por ele. — Todo mundo vai para seus abrigos e ele estará aqui. Ele nem tem permissão para usar o abrigo da escola.

A Sra. Cummings estava chocada. Na sua cabeça, cada criança na escola tinha uma licença para as sofisticadas câmaras subterrâneas do prédio. Mas é claro que não. Somente crianças cujos pais faziam parte do CD, que contribuíram para armar a comunidade. E se o pai de Foster fosse um anti-P...

— Ele tem medo de ficar aqui — as vozes disseram. — Ele tem medo que aconteça enquanto está sentado aqui, e todos os outros estarão seguros no abrigo.


Mike vagou sem pressa, com as mãos enfiadas nos bolsos, chutando pedras na calçada. 
O sol estava se pondo. 
Os foguetes de comutação de nariz arrebitado descarregavam pessoas cansadas, mas felizes por estarem longe da fábrica, duzentos quilômetros a oeste. 
Nas colinas distantes algo brilhou, uma torre de radar girando silenciosamente na escuridão noturna. Os NATS circundantes aumentaram em número. 
As horas do crepúsculo eram as mais perigosas; Observadores visuais não conseguiam detectar mísseis de alta velocidade que se aproximassem voando próximo ao solo. Assumindo que os mísseis viriam.

Uma excitada máquina de notícias mecânica gritou para ele quando passou, sobre a guerra, a morte e incríveis novas armas desenvolvidas no exterior.
Ele curvou os ombros e continuou além das pequenas conchas de concreto que serviam de casas, cada uma exatamente igual, robustos cofres reforçados. 
Em frente dele, brilhantes anuncios de néon na escuridão; o distrito de negócios, vivo com o trânsito e o movimento de pessoas.
A meio quarteirão do brilhante conjunto de néon, ele parou. 
À sua direita estava um abrigo público, uma entrada escura de um túnel com uma catraca mecânica brilhando. 
Entrada cinquenta centavos.

Se ele estivesse na rua e tivesse cinquenta centavos, estaria tudo bem com ele. 
Havia se afundado muitas vezes em abrigos públicos, durante treinamentos de bombardeios. Mas outras vezes, horríveis, tempos de pesadelo que nunca sairam de sua mente, ele não tinha cinquenta centavos. Permaneceu mudo e aterrorizado, enquanto as pessoas empurravam-no passando por ele, com os gritos estridentes das sirenes soando por toda parte.
Continuou até chegar à mais brilhante mancha de luz, ao grande e brilhante Salão de Exposição da General Electronics, de dois quarterões de comprimento, iluminado por todos os lados. 
Parou e examinou pela milionésima vez a exibição hipnotizante que sempre o atraiu quando ele estava por perto.

No centro havia um único objeto, uma gota elaborada de máquinas e suportes, vigas e paredes e fechaduras seladas. 
Todos os holofotes estavam sobre ele. 
Grandes cartazes anunciavam centenas de vantagens,... como se houvesse qualquer dúvida.

O NOVO ABRIGO SUBTERRÂNEO 1972 A PROVA DE BOMBAS
SELADO CONTRA RADIAÇÃO
ESTÁ AQUI!
VEJA ESTAS CARACTERÍSTICAS:
* elevação automática  — à prova de esmagamento, bloqueio automático, auto-alimentado e bloqueio e-z
* casco de camada tripla garantido para suportar 5g de pressão sem encurvamento
* Sistema de aquecimento e refrigeração auto-alimentado — rede de purificação de ar de manutenção automática
* Três estágios de descontaminação para alimentos e água
* quatro estágios higiênicos para exposição
* processamento completo de antibióticos
* plano de pagamento e-z

Ele observou o abrigo por muito tempo. 
Era basicamente um grande tanque com um tubo em uma extremidade, qual um pescoço. Esse era o tubo de descida e no lado oposto, uma escotilha de emergência.
Era completamente autônomo, um mundo em miniatura que fornecia sua própria luz, calor, ar, água, remédios e comida quase inesgotável. 
Quando estava completamente abastecido, teria fitas de áudio e vídeo, entretenimento, camas, cadeiras, telas, tudo o que havia em uma boa casa acima da superfície. 
Era, na verdade, uma casa abaixo do solo. 
E não faltava nada. 
Uma família estaria segura, mesmo confortável, durante um ataque de bomba H e ataques bacterianos mais sérios.
Custava vinte mil dólares.
Enquanto ele olhava silenciosamente, um dos vendedores veio da cafeteria.

— Olá, filho — disse automaticamente quando passou por Mike Foster. — Não é nada mal, não é?

— Posso entrar? — Foster perguntou rapidamente. -Posso?

O vendedor parou reconhecendo o menino.

— Você é aquele garoto — disse devagar — aquele maldito garoto que sempre nos incomoda.

— Eu gostaria de entrar nele apenas por alguns minutos. Não vou mexer em nada... eu
prometo. Não vou tocar em nada.

O vendedor era jovem e loiro, um homem bem atraente, com vinte e poucos anos. Ele
hesitou, suas reações se dividiram. O garoto era uma praga. Mas ele tinha uma família, e isso significava uma razoável perspectiva. Os negócios iam mal, era final de setembro e a queda sazonal... Não havia lucro em expulsar o menino mas por outro lado, era ruim para os negócios encorajar aquelas pestes a ficar ao redor da mercadoria. Desperdiçavam seu tempo, quebravam coisas; roubavam quando ninguém estava olhando.

— Sem chance — disse o vendedor. — Olhe, mande o seu velho vir aqui. Ele sabe o que temos aqui?

— Sim — disse Mike Foster.

— E o que o está segurando? — O vendedor acenou amplamente para a grande exibição brilhante. — Vamos lhe pagar um bom preço pelo seu antigo, considerando a depreciação e a obsolescência. Qual modelo ele tem?

— Nós não temos nenhum.

O vendedor piscou: — Como assim?

— Meu pai diz que é um desperdício de dinheiro. Ele diz que eles estão tentando assustar as pessoas para comprar coisas de que não precisam. Ele disse...

— Seu pai é um anti-P?

— Sim — Mike Foster respondeu infeliz.

O vendedor suspirou.

— Tudo bem, criança. Desculpe, não podemos fazer negócios. Não é sua culpa — então desabafou — que diabos tem de errado com ele? Ele não apoia o NATS?

— Não.

O vendedor praguejou em voz baixa. Um aproveitador, seguro porque o resto da comunidade estava reunindo trinta por cento de sua renda para manter um sistema de defesa constantemente funcionando. Sempre havia alguns deles em cada cidade.

— Como sua mãe se sente à respeito? — O vendedor quis saber. — Ela o apoia?

— Ela diz que... — Mike Foster mudou o rumo da conversa. — Eu não poderia entrar nele por um momento? Não vou mexer em nada. Só uma vez!

— Como venderemos esse se deixarmos as crianças entrar nele? Não se trata de um modelo de demonstração, nós ficamos com eles muitas vezes.

A curiosidade do vendedor fora despertada.

— Como um homem consegue ser anti-P? Ele sempre se sentiu assim, ou ficou assim por algum motivo?

— Ele diz que vendem para as pessoas muitos carros e máquinas de lavar e aparelhos de televisão, tantos quanto as pessoas podem usar. Ele diz que a NATS e os abrigos de bombas não servem para nada. Ele diz que as fábricas vão continuar fazendo armas e máscaras de gases para sempre, enquanto as pessoas pensarem que se continuarem pagando por elas, não serão mortas. E que talvez um homem se canse de pagar um carro novo todos os anos e pare, mas ele nunca vai parar de comprar abrigos para proteger suas crianças.

— Você acredita nisso? — O vendedor perguntou.

— Eu gostaria que tivéssemos esse abrigo — respondeu Mike Foster. — Se tivéssemos um abrigo assim, eu iria dormir nele todas as noites. Estaria lá quando precisássemos dele.

— Talvez não aconteça uma guerra — disse o vendedor sentindo a tristeza do menino e
seu medo. Sorriu bem humorado. — Não se preocupe o tempo todo. Provavelmente você anda assistindo muitas fitas de vídeo. Saia um pouco para brincar, e as coisas vão melhorar.

— Ninguém está seguro na superfície — disse Mike Foster. — Temos que ficar abaixo da superfície. E não há lugar para onde eu possa ir.

— Mande o seu velho vir falar comigo — o vendedor murmurou com dificuldade. — Talvez possamos convencê-lo. Temos experiência no negócio e ótimos planos de pagamento. Diga-lhe para procurar por Bill O'Neill. OK?

Mike Foster se afastou para dentro da noite negra. 
Sabia que era esperado estar já casa, mas seus pés se arrastavam e seu corpo estava pesado e aborrecido. Sua fadiga fez com que ele lembrasse o que o treinador atlético havia dito no dia anterior, durante os exercícios.
Eles estavam praticando suspensão da respiração, correndo e segurando o ar. Ele não tinha se saido bem. Os outros meninos ainda corriam quando ele parou, expulsou o seu ar, e ficou parado recuperando-se.

— Foster — o treinador disse com raiva. -Você está morto! Você sabe disso? Se este tivesse sido um ataque com gás...Vá e pratique sozinho. Você deve fazer melhor, se você espera sobreviver.
Mas ele não esperava sobreviver.

Quando pisou na varanda de entrada de casa, encontrou as luzes da sala acesas. Podia ouvir a voz de seu pai, e mais suavemente a voz de sua mãe na cozinha.
Entrou, fechou a porta atrás de si e começou a despir o casaco.

— É você? — Bob Foster estava sentado na cadeira, o colo cheio de fitas e folhas de relatórios de sua loja de móveis de varejo. — Onde estava? O jantar já está pronto faz meia hora.

Parecia cansado; seus olhos eram grandes e escuros, seus cabelos finos. Movia as fitas de uma pilha para outra.

— Desculpe — disse Mike Foster.

O pai examinou seu relógio de bolso; Era certamente o único homem que ainda carregava um relógio.

— Vá lavar as mãos. O que tem feito? — Examinou seu filho. — Você parece estranho. Está se sentindo bem?

— Eu estava no centro da cidade — disse Mike Foster.

— O que estava fazendo no centro da cidade?

— Olhando os abrigos.

Sem dizer uma palavra seu pai pegou um punhado de relatórios e os colocou em uma pasta. Seus lábios finos estavam juntos, linhas duras enrugavam a testa.
Ele resmungou furiosamente quando algumas fitas cairam e se curvou para pegá-las.
Mike Foster não fez nenhum movimento para ajudá-lo. Pendurou o casaco em um gancho. Quando se virou, sua mãe entrava na sala de jantar.
Eles comeram sem conversar entre si, com a intenção de comer. 
Finalmente seu pai disse:

— O que você viu? A mesma porcaria de sempre, eu suponho.

— Os novos modelos 72 — respondeu Mike Foster.

— Eles são os mesmos que os modelos 71 — seu pai jogou seu garfo selvagemente sobre a mesa. — Tem algumas engenhocas novas, um pouco mais de cromo. Isso é tudo! — De repente ele estava encarando-o desafiadoramente. — Certo?

Mike Foster brincou com a galinha cremosa.

— Os novos têm um elevador de descida à prova de esmagamento. Você não vai ficar preso na metade do caminho. Tudo o que você precisa fazer é entrar, e ele faz o resto.

— No ano que vem haverá um que irá buscá-lo e levá-lo para baixo. Este será obsoleto assim que as pessoas o comprarem. É o que eles querem... querem que você continue comprando. Eles continuam lançando um novo modelo o mais rápido possível. Ainda estamos em 1971. O que está acontecendo? Eles não podem esperar?

Mike Foster não respondeu. Ele já havia ouvido tudo isso muitas vezes. Nunca houve
nada novo, apenas mais cromo; ainda assim, os antigos tornavam-se obsoletos. 
O argumento do pai era sonoro, apaixonado, quase frenético, mas não fazia sentido.

— Vamos pegar um velho então — falou Mike. — Não me importo, ninguém vai se importar. Mesmo um de segunda mão.

— Não, você quer o novo. Brilhante, para impressionar os vizinhos. Muitos botões e alavancas. Quanto estão pedindo por ele?

— Vinte mil dólares.

Seu pai soltou a respiração.

— Ai está!

— Eles têm planos de pagamento de longa duração.

— Claro. Você paga o resto da sua vida. Juros, cobranças, e qual o tempo da garantia?

— Três meses.

— O que acontece quando termina a garantia? Vai parar de purificar e descontaminar, vai 
desmoronar assim que terminarem os três meses.

Mike Foster sacudiu a cabeça.

— Não. Ele é grande e resistente.

Seu pai corou. Era um homem pequeno, delgado e leve, desossado. Pensou de repente nas batalhas perdidas de sua vida, pelo caminho mais difícil, de luta por algo, um emprego, dinheiro, sua loja de varejo, contabilista e finalmente proprietário.

— Eles estão nos assustando para manter a roda girando — gritou desesperadamente para sua esposa e filho. — Eles não querem outra depressão.

— Bob — disse sua esposa devagar — você tem que parar com isso. Eu não suporto mais.

Bob Foster piscou.

— Sobre o que está falando? Estou cansado! Esses impostos! Não é possível que uma loja pequena se mantenha aberta, não com as grandes cadeias de venda. Deveria haver uma lei! — Sua voz se apagou.

— Eu acho que estávamos comendo.

Ele afastou-se da mesa e ficou de pé.

— Vou deitar no sofá e tirar uma soneca.

O rosto magro de sua esposa ardia.

— Você tem que comprar um! Não suporto o modo como eles falam sobre nós. Todos os vizinhos e os comerciantes, todos os que sabem. Não posso ir a lugar algum ou fazer nada sem ouvir isso. Os Anti-P. Os últimos em toda a cidade. Essas coisas circulam por aí, e todos pagam, exceto nós.

— Não — disse Bob Foster. — Não posso pagar.

— Por que não?

— Porque não posso pagar.

Houve silêncio.

— Você colocou tudo naquela loja — Ruth disse finalmente. — E não está dando certo. Você é como um rato, acumulando tudo naquele pequeno buraco na parede. Ninguém quer mais móveis de madeira. Você é uma relíquia... uma curiosidade.

Ela bateu na mesa e foi juntar os pratos vazios. Correu da sala, voltou para a cozinha com os pratos. Bob Foster suspirou cansadamente.

— Não vamos brigar. Estarei na sala de estar. Deixe-me tirar uma soneca por uma hora ou mais.

Talvez possamos conversar sobre isso mais tarde.

— Sempre mais tarde — disse Ruth amargamente.

O marido desapareceu na sala de estar, uma figura pequena e encurvada, cabelo cinza, ombros como asas quebradas.

Mike levantou-se e disse: — Vou estudar minha lição de casa.

Seu pai olhou para ele com um olhar estranho no rosto. 
A sala de estar estava quieta; o vídeo estava desligado e a luz desligada. Ruth estava na cozinha ajustando os controles sobre o fogão para as refeições do próximo mês. 
Bob Foster estava deitado no sofá sem os sapatos, a cabeça no travesseiro. Seu rosto cinza de fadiga. 
Mike hesitou por um momento e depois disse: — Posso te perguntar uma coisa?
Seu pai grunhiu e se agitou, abriu os olhos.

— O que?

Mike sentou-se de frente para ele.

— Diga-me novamente como você deu conselhos ao presidente.

— Eu não dei nenhum conselho ao presidente. Apenas falei com ele.

— Conte-me sobre isso.

— Eu lhe contei um milhão de vezes. Quando... você era um bebê. — Sua voz suavizou. — Você era apenas uma criança pequena, nós precisávamos carregá-lo.

— Como ele era?

— Bem — seu pai começou — ele era como vemos no vídeo, só que menor.

— Por que ele estava aqui? — Mike quis saber embora conhecesse todos os detalhes. O presidente era seu herói, o homem que ele mais admirava em todo o mundo.

— Por que ele veio até a nossa cidade?

— Ele estava em uma caravana — A amargura entrou na voz de seu pai. — Estava de passagem.

— Que tipo de caravana?

— Visitando cidades em todo o país — o tom ficou mais duro. — Vendo como estávamos
lidando com tudo. Vendo se nós pagávamos NATS e comprávamos abrigos e máscaras de gás e redes de radar para repelir o ataque. A General Electronics Corporation estava começando com as grandes exposições... tudo muito brilhante e caro. O primeiro equipamento de defesa disponível para comprar para casa — seus lábios se torceram. — Em leves prestações. Anúncios, holofotes, gardênias grátis para as senhoras. Foi o dia em que nossa cidade obteve a Bandeira de Preparação. Foi o dia em que ele veio nos dar a nossa bandeira. E eles colocaram no mastro no meio da cidade, e todos estavam lá gritando e vibrando.

— Você se lembra disso?

— Eu me lembro de pessoas e sons. E estava quente. Era junho, não? Dez de junho de 1965. Nem todas as cidades tinham a grande bandeira verde, então. As pessoas ainda estavam comprando carros e aparelhos de TV. Eles ainda não haviam se dado conta de que esses dias tinham acabado.

— E ele lhe deu a bandeira, não é?

— Bem, ele deu a todos nós comerciantes. A Câmara de Comércio organizou tudo.
Concorrência entre cidades, veja quem pode comprar o mais rápido possível. Melhore nossa cidade e ao mesmo tempo estimule negócios. É claro que, como eles diziam, a ideia era de que se tivessemos que pagar por nossas máscaras de gás e abrigos de bomba, nós cuidariamos melhor deles. Como se alguma vez danificássemos telefones e calçadas, ou estrada, porque o governo havia fornecido-os. Ou exércitos. Não houve sempre exércitos? O governo sempre organizou o seu povo para a defesa. Acho que a defesa custa demais. Acho que eles economizam muito dinheiro, reduzindo a dívida nacional.

— Diga-me o que ele te disse — Mike Foster sussurrou.

Seu pai procurou seu cachimbo e acendeu com mãos trêmulas.

— Ele disse: ‘Aqui está a sua bandeira. Você fez um bom trabalho’.

Bob Foster engasgou com a fumaça do cachimbo.

— Ele estava com rosto vermelho, queimado pelo sol. Suando e sorrindo. Ele sabia como lidar com isso. Ele conhecia muitos nomes. Contou uma piada engraçada.

Os olhos do menino estavam arregalados com admiração.


— Ele veio de longe e falou com você.

— Sim — disse seu pai. — Eu conversei com ele. Todos estavam gritando. A bandeira
estava subindo, a grande bandeira verde.

— Você disse...

— Eu disse a ele: ‘É tudo que você nos trouxe? Uma tira de pano verde?'. — Bob Foster
segurava tenso seu cachimbo. — Foi quando eu me tornei um anti-P. Só não sabia disso.
Tudo o que sabia era que estávamos sozinhos, por conta própria, exceto que tínhamos uma tira de pano verde. Deveríamos ser um país, uma nação inteira, cento e setenta milhões de pessoas trabalhando juntas para se defender. E, em vez disso, somos muitas pequenas cidades separadas, pequenas fortalezas muradas. De volta à Idade Média. Com nossos exércitos separados...

— O presidente vai voltar? — Mike perguntou.

— Eu duvido. Ele estava... apenas de passagem.

— Se ele voltar — sussurrou Mike, tenso e não ousou esperar — podemos ir ver ele?

Bob Foster sentou-se. 
Seus braços secos estavam nus e brancos, o rosto magro era monótono de cansaço. 
E renúncia.

— Quanto custava a maldita coisa que você viu?

— O abrigo de bombas? — O coração de Mike disparou. — Vinte mil dólares.

— Hoje é quinta-feira. Vou com você e sua mãe no próximo sábado. Vamos comprá-lo no plano de pagamento mais fácil. A temporada de compras de outono está chegando em breve. Eu costumo me sair bem, as pessoas compram móveis de madeira para dar de presente de Natal — levantou-se abruptamente do sofá.

— De verdade?

— Sim — disse seu pai lidando com a ansiedade. — Agora você não precisará ir até o centro e ficar olhando pela janela.


O abrigo foi instalado. 
Por mais duzentos dólares para um trabalho rápido feito pela equipe de camisas marrons com as palavras GENERAL ELECTRONICS costurado em suas costas. 
O pátio traseiro foi rapidamente restaurado, terra e arbustos espalhados no lugar, a superfície alisada e a conta respeitosamente colocada sob a porta da frente. 
O caminhão de entrega pesado, agora vazio, sumiu na rua e o bairro ficou em silêncio.
Mike Foster estava de pé com sua mãe e um pequeno grupo de vizinhos na varanda dos fundos da casa.

— Bem — disse a Sra Carlyle — agora você tem um abrigo. O melhor que existe.

— Isso mesmo — concordou Ruth Foster consciente das pessoas à sua volta. Já fazia algum tempo que tantos tinham aparecido de uma só vez. — Certamente faz diferença — disse ela firme.

— Sim — o Sr. Douglas concordou. — Agora você tem um lugar para ir — pegou o grosso livro de instruções que os trabalhadores deixaram. — Isso diz que você pode estocar para um ano inteiro. Viver lá doze meses sem vir à superfície uma única vez. — Balançou a cabeça com admiração. — O meu é um antigo modelo 69. Apenas seis meses. Eu acho que talvez...

— Ainda é bom o suficiente para nós — sua esposa falou entrando na conversa. — Podemos descer e olhar por dentro, Ruth? Está tudo pronto, não?

Mike fez um barulho e se moveu bruscamente pra frente. 
Sua mãe sorriu compreensiva.

— Ele tem que ir primeiro...  é realmente para ele, vocês sabem.


Com seus braços dobrados contra o vento frio de setembro, o grupo de homens e mulheres esperou e observou quando o menino se aproximou da entrada do abrigo e parou alguns passos na frente dele. Passou com cuidado pela entrada, quase com medo de tocar qualquer coisa. A abertura era grande para ele, fora construída para um homem adulto. O chão cedeu descendo tunel abaixo com um whoosh de tirar o fôlego, e ele caiu dentro do corpo do abrigo.
O elevador batera forte contra os amortecedores e o garoto tropeçou. O elevador então voltou à superfície, selando simultaneamente o abrigo subterrâneo, com uma cortina de aço e plástico intransponível no interior do túnel estreito.

Luzes acenderam ao seu redor automaticamente.
O abrigo estava vazio, nenhum suprimento havia ainda sido carregado. Cheirava a verniz e a óleo do motor, abaixo dele os geradores estavam latejando de leve. 
Sua presença ativou os sistemas de purificação e descontaminação, medidores de parede e mostradores saltaram com a súbita atividade.
Se sentou ao chão, os joelhos esticados e os olhos arregalados. 
Não havia som senão o dos geradores.

O contato com o mundo acima fora completamente cortado. 
Ele estava em um pequeno cosmos autônomo e tudo estava aqui... ou estaria em breve. Comida, água, ar, coisas para fazer. Não precisaria de nada mais. Ele poderia chegar e pegar o que ele precisasse. 
Poderia ficar aqui para sempre, durante todo o tempo, sem se mexer.
Completo e inteiro. Nada em falta, nada a temer, com apenas o som dos geradores
ronronando abaixo dele e as paredes absurdamente ascéticas ao redor e acima e por todos os lados, levemente quente, completamente amigável como um recipiente vivo.
De repente ele gritou um grito de júbilo que ecoou e saltou de parede para parede. 
Ficou assustado com a reverberação. 
Fechou os olhos com força e apertou os punhos.
Encheu-se de alegria e gritou novamente...  e deixou o rugido ecoar sua própria voz reforçada pelas paredes próximas e duras e incrivelmente poderosas.


As crianças na escola souberam mesmo antes dele aparecer na manhã seguinte. Saudaram-no enquanto aproximava-se, todos sorrindo e cutucando-se mutuamente.

— É verdade que seu pessoal comprou o novo modelo? S-72ft? — Earl Peters indagou.

— Isso mesmo — respondeu Mike. Seu coração inchou com uma confiança tranquilizadora que ele nunca havia conhecido.
Passou por eles consciente de seus olhares invejosos.

— Bem, Mike — disse a Sra. Cummings quando ele estava saindo da sala de aula no final da dia. — Como é?

Ele parou na sua mesa, tímido e cheio de orgulho silencioso.

— É bom — admitiu.

— Seu pai está contribuindo para o NATS?

— Sim.

— E você tem uma licença para o nosso abrigo escolar?

Feliz ele mostrou a ela o pequeno selo azul preso em torno de seu pulso.

— Agora você tem tudo que todos têm — a mulher idosa sorriu para ele. — Fico satisfeita com isso. Você agora é um Pró-P, exceto que não existe tal termo. Você é apenas... como todo mundo.


No dia seguinte as máquinas de notícias cuspiram notícias.
Novos armamentos soviéticos revelados.
Bob Foster ficou no meio da sala de estar, o boletim de notícias em suas mãos, seu rosto magro corado de fúria.

— Malditos! É um complô! — Sua voz aumentou em frenesi. — Nós acabamos de comprar a coisa e agora olhe! Olhe! — Empurrou a fita para a esposa. — Vê? — Eu disse a você!

— Eu vi — Ruth disse com raiva. — Suponho que você acha que o mundo inteiro estava apenas esperando você comprar o abrigo. Eles estão sempre melhorando as armas, Bob. Na semana passada foram flocos de impregnação. Esta semana, grãos perfurantes. Você não espera que eles parem as rodas do progresso porque você finalmente deu o braço a torcer e comprou um abrigo, espera?
Se encararam.

— O que diabos vamos fazer? — Perguntou Bob Foster.

Ruth voltou para a cozinha.

— Ouvi dizer que eles vão lançar adaptadores.

— Adaptadores! O que você quer dizer?

— As pessoas não terão que comprar novos abrigos. Vi num comercial. Eles vão lançar algum tipo de grade de metal no mercado, assim que o governo aprovar. Ela é espalhada pelo chão e intercepta os grânulos e os faz explodirem na superfície, para que não possam atravessar a parede do abrigo.

— Quanto vai custar?

— Eles não disseram.

Mike Foster estava sentado no sofá. Ele tinha ouvido as notícias na escola.
Eles estavam fazendo identificação de toxinas,examinando amostras em animais selvagens para distinguir as inofensivas das tóxicas, quando o sino anunciou uma
Assembleia Geral. O diretor leu as notícias sobre os grânulos e depois deu uma palestra de rotina sobre o tratamento de emergência de uma nova variante do tifo, recentemente desenvolvida.
Seus pais ainda estavam discutindo.

— Vamos ter que conseguir um — disse Ruth Foster calmamente. — Caso contrário não fará qualquer diferença se temos um abrigo ou não. Os grânulos foram projetados especificamente para penetrar na superfície e buscar calor. Assim que os russos tiverem iniciado a produção...

— Vou comprar uma — disse Bob Foster. — Uma grade anti-grânulos e qualquer outra coisa que eles tenham. Vou comprar tudo o que eles colocarem no mercado. Eu nunca vou parar de comprar.

— Não é tão ruim assim!

— Você sabe, este jogo tem uma vantagem sobre vender carros e aparelhos de TV. Temos que comprar. Não é um luxo, algo grande e chamativo para impressionar os vizinhos, algo que poderíamos ficar sem. Se não comprarmos, morreremos. Eles sempre disseram que a maneira de vender algo era criar necessidade nas pessoas. Crie uma sensação de insegurança... diga-lhes que eles cheiram mal ou tem cabelos engraçados. A piada faz vender desodorante e gel para cabelo. Você não pode escapar disso. A armadilha perfeita. Compre ou morra... novo slogan. Tenha um novo e brilhante refúgio de bomba em seu quintal ou morra.

— Pare de falar assim! — Ruth disparou.

Bob Foster sentou-se na mesa da cozinha.

— Tudo bem! Eu desisto! Eu me rendo!

— Acho que eles estarão à venda no Natal.

— Oh, sim — disse Foster. — No Natal! — Havia um olhar estranho em seu rosto. — Vou comprar uma das malditas coisas no Natal, e assim em todos os outros depois.


Os adaptadores de grade da GEC eram um sucesso.
Em Dezembro Mike Foster caminhava lentamente ao longo da rua lotada pela multidão, no crepúsculo da tarde. Adaptadores brilhavam em cada janela das lojas. Todas as formas e tamanhos, para todo tipo de abrigo. Todos os preços, um para cada bolso. 
Multidões alegres e excitadas, típicas de natal, empurrando-se com naturalidade, carregadas com pacotes e vestindo sobretudos pesados. 
O ar era branco pelas rajadas de neve. 
Carros trafegavam cautelosamente ao longo das ruas lotadas.
Luzes e telas de néon, imensas janelas brilhantes das lojas por todos os lados.
Mas sua própria casa estava escura e silenciosa.
Seus pais não estavam em casa ainda. Ambos estavam na loja, trabalhando, os negócios não tinham sido bons e sua mãe estava tomando o lugar de um dos funcionários. 
Mike segurou na mão a chave-código e a porta da frente deixou-o entrar.
O forno automático mantinha a casa quente e agradável. 
Removeu seu casaco e guardou os livros escolares.
Ele não permaneceria na casa por muito tempo. 
Seu coração batendo com entusiasmo, caminhou em direção à porta e da varanda dos fundos. Então se forçou a parar, virar-se e voltar a entrar na casa. 
Era melhor não apressar as coisas.

Toda tarde, logo que chegava em casa, descia para o abrigo escondido e protegido em seu silêncio de aço, como desde o primeira dia. Agora ele estava cheio, não vazio,
repleto de infinitas latas de comida, travesseiros, livros, fitas de áudio e vídeo, quadros nas paredes, tecidos brilhantes, texturas e cores, até mesmo vasos de flores.
O abrigo era seu lugar, cercado por tudo o que precisava. 
Postergando o máximo de tempo possível, revirou o arquivo de fitas de áudio.

Sentava-se no abrigo até o jantar, ouvindo Wind in the Willows. Seus pais sabiam onde encontrá-lo; ele estava sempre lá embaixo. Duas horas de felicidade ininterrupta, sozinhas no abrigo. E então, quando o jantar terminava, ele se apressava de volta, para ficar aguardando na cama. Às vezes, tarde da noite, quando seus pais estavam profundamente adormecidos, ele se dirigia para o abrigo e para baixo em suas profundidades silenciosas, se escondendo até a manhã.
Encontrou a fita de áudio que procurava e correu pela casa, para o quintal dos fundos. 
O céu era de um cinza sombrio com flâmulas de nuvens negras. 
As luzes da cidade aqui e ali. O pátio frio e hostil. 
Desceu pelos degraus e congelou.
Uma enorme cavidade apareceu.
Uma boca aberta, vazia e desdentada, aberta ao céu noturno.
Não havia mais nada. 
O abrigo tinha desaparecido.

Ele ficou de pé por um tempo sem fim, a fita apertada em uma mão, a outra mão no corrimão do alpendre. 
A noite tomou conta e o buraco morto dissolveu-se na escuridão. 
O mundo inteiro gradualmente se colapsou em silêncio e tristeza abismal. 
Estrelas fracas, luzes nas casas vizinhas surgiram com força e frio. 
O menino não via mais nada. Permaneceu imóvel, seu corpo rígido como pedra, ainda de frente para o grande buraco, onde o abrigo tinha estado.
Então o pai parou ao seu lado.

— À quanto tempo está aqui? Por quanto tempo, Mike? Me responda!

Com esforço Mike conseguiu virar-se.

— Você chegou cedo — murmurou o pai. — Eu deixei a loja com antecedência. Queria estar aqui quando você chegasse em casa.

— Foi-se.

— Sim — a voz de seu pai era fria, sem emoção. — Me desculpe, Mike. Liguei para eles e disse-lhes para retomá-lo.

— Por quê?

— Eu não poderia pagar por ele. Não neste Natal, com as grades que todos estão recebendo. Eu não posso competir com eles — interrompeu-se e depois continuou com misericórdia. — Eles foram bem decentes. Devolveram metade do dinheiro que eu paguei — sua voz distorceu irônica. — Eu sabia que se eu fizesse um acordo com eles antes do Natal eu teria vantagem. Eles podem revender o abrigo para outra pessoa.
Mike não disse nada.

— Tente entender — seu pai continuou com firmeza. — Tive que colocar todo o capital que eu podia juntar na loja. Eu tenho que mantê-la funcionando. Foi abandonar o abrigo ou a loja. E se eu desistisse da loja...

— Então, não teríamos nada.

Seu pai agarrou seu braço.

— E então teríamos que desistir do abrigo também. Você está crescendo... tem idade suficiente para entender. Nós compraremos um abrigo mais tarde, talvez não o maior, o mais caro, mas algo. Foi um erro, Mike. Não pude... os malditos adaptadores. Mas tenho feito os pagamentos NAT. E da sua escola. E não é uma questão de princípio. Não pude evitar. Você entende, Mike?
Mike se afastou.

— Onde você vai? — Seu pai correu atrás dele. — Volte aqui!

Agarrou seu filho freneticamente, mas na escuridão ele tropeçou e caiu. Quando olhou novamente, o pátio estava vazio. Seu filho tinha ido embora.

— Mike! — Gritou. — Onde você está?

Não houve resposta. 
O vento noturno soprava nuvens de neve ao redor dele, numa fina rajada de ar frio. Vento e escuridão, nada mais.


Bill O'Neill examinou o relógio na parede. 
Era nove e trinta e ele poderia finalmente empurrar para fora da grande e deslumbrante loja a multidão de pessoas murmurando à caminho de casa e fechar.

— Graças a Deus — ele bufou enquanto segurava a porta aberta para uma última senhora carregada com pacotes de presentes. Clicou o código e puxou a grade.

— Nunca vi tanta gente!

— Tudo pronto — disse Al Conners da caixa registradora. — Vou contar o dinheiro. Dê uma volta e verifique. Certifique-se de que todos sairam.

O'Neill empurrou o cabelo loiro para trás e afrouxou a gravata. Acendeu um cigarro com satisfação, pressionando interruptores de luz, desligando as amplas telas e aparelhos da GEC. 
Finalmente se aproximou do enorme abrigo que ocupava o centro do salão. Subiu a escada até a entrada e pisou no elevador. O elevador caiu com um whoosh e um segundo depois, ele saiu no interior do abrigo.
Mike Foster sentava-se com os joelhos contra o queixo, os braços magros envolvidos em torno de seus tornozelos. Seu rosto pressionado, apenas o seu cabelo marrom desordenado. Não se moveu quando o vendedor se aproximou dele espantado.

— Jesus! — O'Neill exclamou. — É aquele garoto!

Mike não disse nada. Abraçou as pernas com mais força.

— O que diabos você está fazendo aqui embaixo? — O'Neill disse bravo. Sua indignação aumentou.

— Eu pensei que seu pessoal tinha comprado um desses — só então ele se lembrou.— Certo. Tiveram que devolvê-lo.

Al Conners apareceu do elevador.

— Por que está demorando? Vamos sair daqui e... — e viu Mike. — O que ele está fazendo aqui embaixo? Tire-o daqui!

— Vamos, garoto — disse O'Neill gentilmente. — Hora de ir para casa.

Mike não se moveu. Os dois homens se olharam.

— Eu acho que vamos ter que arrastá-lo para fora — disse Conners sombriamente tirando o casaco e jogando-o sobre um dispositivo de descontaminação.

— Vamos acabar com isso.

Precisou dos dois. O menino lutou desesperadamente, sem som, agarrando e lutando
e rasgando-os com as unhas, chutando-os, cortando-os, mordendo-os quando o agarravam. 
Meio arrastado, levaram-no para o elevador, o suficiente para ativar o mecanismo. O'Neill segurou-o e Conners veio imediatamente depois. 
De forma eficiente empurraram o menino para a porta da frente, jogaram-no do lado de fora e trancaram tudo de novo.

— Uau — Conners ofegou apoiando-se contra o balcão. Sua manga estava rasgada e
sua bochecha ferida. Os óculos pendiam de uma orelha; seu cabelo estava desalinhado e ele estava exausto.

— Acha que devemos chamar a polícia? Há algo de errado com aquele garoto.

O'Neill ficou junto à porta, ofegante e olhando para a escuridão. 
Podia ver o menino sentado na calçada.

— Ele ainda está lá — murmurou.

Pessoas empurravam o menino para ambos os lados até que ele caiu. 
Finalmente um deles parou e levantou-o. O menino lutou para livrar-se e depois desapareceu na escuridão.

O’Neill enxugou o rosto com o lenço. — Ele lutou bem.

— Qual o problema com ele? Ele nunca disse nada, nem uma maldita palavra.

— O Natal é o pior momento para se perder alguma coisa — disse O'Neill alcançando tremendo seu casaco. — É muito ruim. Eu queria que eles pudessem ter ficado com ele.
Conners encolheu os ombros.

— Sem dim-dim, sem sopa.

— Por que diabos não podemos oferecer-lhes um acordo? Talvez... — O'Neill lutou para lembrar a palavra. — Atacado. Talvez pudéssemos vender o abrigo por atacado, para pessoas assim.

Conners olhou para ele com raiva.

— Atacado? E se todo mundo quiser comprar por atacado. Não seria justo... e quanto tempo ficaríamos nos negócios? Quanto tempo a GEC duraria?

— Eu acho que não muito tempo — O'Neill admitiu com humor.

— Use sua cabeça — Conners riu bruscamente. — O que você precisa é de um trago. Tenho metade um Haig & Haig em uma gaveta lá atrás. Uma pequena coisa para aquecê-lo, antes de ir para casa. É o que você precisa.


Mike Foster vagava sem rumo pela rua escura, entre as multidões de compradores
apressando-se para chegar em casa. 
Não via nada, as pessoas empurravam-no.
Luzes, pessoas rindo, buzinas dos carros, o ruído dos anúncios. 
Sua mente vazia e morta. 
Andou automaticamente, sem consciência. 
À sua direita, um anúncio de néon piscava e brilhava nas profundezas da noite.
Um letreiro enorme, brilhante e colorido.


PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE
ADMISSÃO NO ABRIGO PÚBLICO 50 CENTAVOS

FIM.

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